terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Economia




O agronegócio da região já sente o baque da crise mundial


A crise está diariamente nas páginas dos impressos, nos noticiários eletrônicos e nas conversas informais. O governo brasileiro diz estar preparado para enfrentar as conseqüências da crise que afetou o sistema bancário norte-americano. O que sabemos é que nenhum país está imune. No Brasil, a turbulência dos mercados já vem afetando alguns setores. A Bolsa de Valores, por exemplo, foi a primeira a sentir o impacto por ser baseada em um país emergente, que aos olhos do investidor estrangeiro, significa mais risco.
“Essa crise mundial começou com o maior consumidor e cliente brasileiro: os Estados Unidos. Eles consomem mais de 20% de toda a produção nacional, então é necessário que o país ande bem”, afirma Da Caz, vice-presidente da Sociedade Rural.
É quando se fala no dólar que a preocupação se aproxima: Francisco Beltrão, assim como a região, tem sua economia fortemente sustentada no setor agropecuário – boa parte destinada para exportação. O Vale do Iguaçu, em que Beltrão está inserida, é um pólo de cria reconhecido nacionalmente e que já vem sentindo o baque mundial.
“As empresas tiveram créditos reduzidos, ou seja, houve falta de capital de giro necessário desde a produção até a exportação – que leva de seis a oito meses. O setor avícola foi fortemente atingido por ser dependente da exportação. Em relação a janeiro do ano passado, tivemos uma redução de 15% no mesmo mês deste ano”, diz Alexandre Pécoits, gerente de operações da Gralha Azul Avícola. Segundo Pécoits, não se pode contar apenas com o mercado interno - que não tem mais espaço para crescimento. “Com a falta de crédito, o produto não chegou ao cliente. O que não foi consumido é simplesmente um volume perdido. Agora recomeça a expectativa para que se atinja faturamento próximo ao normal a partir de abril e maio. A que nível esse faturamento chegará, ninguém sabe. O mercado terá que achar outro patamar”, afirma o gerente.
O Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Alimentação acredita que a produção para o abastecimento interno está de acordo com a necessidade. “A crise mundial pode atingir as indústrias ligadas à alimentação pelo fator da exportação. Mas, de toda forma, o setor avícola é o que mais está crescendo nos últimos anos”, comenta Leonete dos Santos Ventura, presidente do Sindicato.
Para que o Brasil passe pela crise sem sentir tanto, algumas medidas já estão sendo tomadas. “É necessário investir em tecnologia, no sistema de cooperativas e ser um contramão a esse sistema bancário que é extremamente ganancioso e trabalha com juros extremamente altos. Se não sofremos muito até então, é porque na nossa região predomina o manufaturado. A salvação do Brasil é ter um governo que investiu no pequeno empresário rural”, avalia Da Caz.

Francisco Beltrão



Policlínica: reformas para a saúde do Sudoeste


A policlínica passa por reformas. Em 2006, ocorreu a renovação no quadro de proprietários: a compra do hospital foi feita por 74 sócios. Desde fevereiro do ano passado, o interior do hospital vem recebendo alterações tanto na estrutura quanto na equipe médica.
Iniciada em fevereiro de 2008, a nova Unidade de Terapia Intensiva (UTI) está para ser inaugurada até o final de fevereiro deste ano, após a liberação de funcionamento pela vigilância sanitária. “A antiga UTI foi fechada em dezembro de 2007. Já tínhamos uma perspectiva do projeto, conseguimos a viabilidade financeira e esperamos que, no começo de março, ela já esteja em funcionamento”, afirma Dr. Leonardo Aranha, um dos diretores gerais da Policlínica São Vicente de Paula. Atualmente, os pacientes estão sendo atendidos em uma UTI improvisada.
O quadro médico também sofreu mudanças. Ao todo será doze o número de médicos contratados. Entre eles, Dr. Marcos Juliano Tassi – intensivista que chegou em outubro do ano passado – que está selecionando equipe qualificada para o trabalho e é responsável pela compra dos novos equipamentos e preparo das rotinas e processos.
Outra obra em andamento corresponde ao aumento de leitos. Dr. Aranha explica: “é uma unidade, a princípio, de convênio particular, que está tendo uma necessidade grande. Esperamos que, até a metade do ano, já esteja funcionando. Então serão doze novas acomodações, unidades de internamento”.
As mudanças se estenderão no decorrer do ano com projetos como a readequação da unidade de terapia neonatal e pediátrica que, se tudo ocorrer conforme o previsto, será inaugurado no final deste ano. “Hoje nós não temos o credenciamento para neonatal, porque não temos o neonatologista. Mas assim que tivermos esse recurso humano, fechamos essa escala com pediatras também”, garante o médico. O objetivo é reformar a maternidade para que as gestantes da região possam ser adequadamente atendidas.
No novo quadro de funcionários, também está Dra. Mabel, médica emergencista que está reformulando as rotinas no pronto socorro. Dr. André, médico-clínico de medicina interna, será responsável pelos internamentos. “O hospital tem uma política de aproximação dos médicos. Tentamos trazer os médicos para trabalharem no hospital, sempre obedecendo aos critérios e analisando os currículos destes profissionais. Nós estamos melhorando bastante no aspecto de recursos humanos, procuramos e estimulamos que isso aconteça”, diz Dr. Aranha.
Para a diretoria da Policlínica, o Hospital Regional é uma realidade que está aí e não fará concorrência. O diretor clínico afirma: “nós enxergamos o Hospital Regional como um hospital que trará uma série de novos serviços para a nossa cidade, que melhorará a qualidade do atendimento e irá transformar a nossa cidade definitivamente em um pólo regional de saúde. Quando se pensar em saúde, vai se pensar na nossa região, vai se pensar obrigatoriamente em Beltrão”.
Adalgisa Mafessoni, secretária executiva da diretoria, em nome de um dos diretores, Dr. Edson Maines, afirma que o objetivo do Hospital é trabalhar em prol da qualidade de saúde no Sudoeste. “A Policlínica, hoje, é uma referência para mais de 300 mil habitantes que compõem a oitava regional. Nós temos que ter condição de atender e, para isso, é necessário investimento”, afirma a secretária.

A nova UTI

A arquiteta Vanessa Behne e a secretária executiva, Adalgisa Kunz Mafessoni, acompanharam a equipe do Hora Popular pela visita nas obras do hospital ao som de muitas marteladas e demolição de paredes. A previsão de gasto aproximado é de 1 milhão e 500 mil reais, na parte física e contratação de funcionários. Ao entrarmos na nova unidade, fica fácil entender o porquê. Serão dez leitos separados por divisórias móveis, camas com grades laterais, ventiladores mecânicos, torneiras com pedal, monitores de última tecnologia, chão revestido com lâminas extensas (para que o depósito de sujeiras seja o menor possível) e vidros dentro dos quais correm cortinas persianas. Tudo isso dentro de uma espaçosa sala verde claro.
Dentro da UTI há ainda um leito de isolamento, para pacientes com doenças infecciosas. O número de leitos aumentou de seis para dez. A UTI Neonatal deverá seguir o estilo da UTI Adulto.
Os corredores, na sua maioria, já deixaram de ser verdes e revestidos de lajotas. A nova cor é bege.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Atualidades

Fechamento de Guantánamo: ruptura ou conservadorismo?

“Posso dizer sem exceção ou equívoco que os Estados Unidos não vão torturar”. Estas foram as palavras do recém-empossado Barack Obama, no dia 22 de janeiro de 2009, em relação a uma de suas primeiras ações como presidente: o fechamento do Campo de Detenção de Guantánamo, em Cuba.

Concedida aos EUA como estação naval em 1903, a Baía de Guantánamo localiza-se no sul de Cuba. É o local onde se encontravam os prisioneiros de guerra do Iraque e do Afeganistão, desde 2002, após os ataques terroristas de 11 de setembro. Segundo a Cruz Vermelha internacional e o próprio FBI, os detentos, que hoje são 245, foram vítimas de tortura e não possuem nenhuma acusação formal. A Anistia Internacional afirma: “Guantánamo é o símbolo da injustiça e do abuso, e deve ser fechada”.

O fechamento da prisão é, aos olhos de boa parte do mundo, uma atitude radical, uma ruptura política em relação ao Bush. Para o coordenador do curso de História da Unipar (Campus Francisco Beltrão), Ismael Vannini, o ato parece ter mais peso do que realmente tem. Conforme Vannini, Cuba já não representa mais uma ameaça aos EUA. “O país está passando por um processo de abertura, o movimento vindo do socialismo, forte nas décadas de 60 e 70, perdeu muito peso com a queda da união soviética, com a criação da Comunidade dos Estados Independentes e agora, com a saída de Fidel”, comenta o coordenador.

Outro ponto de destaque é a linha política tanto de republicanos quanto de democratas, algo que está escrito na tradição do país: o conservadorismo. “Conservadorismo no sentido de manter a política de ação dos EUA. Não se trata de conservadorismo no sentido estrito da palavra, pois foi nos EUA que inúmeros movimentos de vanguarda emergiram, para depois conquistar o mundo. As forças que estavam ao lado Obama jamais o teriam elegido se fosse alguém que prometesse uma mudança drástica, profunda e radical. Ninguém chegaria a representar essa nação se tivesse um cunho ideológico de ruptura”, justifica o professor. Como exemplo, tem-se a grande crise de 1929, quando, mesmo com todos os problemas enfrentados, não se optou por mudança: Roosevelt foi reeleito.

Sobre a imagem de Obama, Vannini deixa sua posição. “Não vou dizer que ele não mudará alguma coisa em beneficio dos outros países, mas em hipótese alguma em detrimento dos EUA”, diz o historiador. “Temos que levar em consideração o contexto mundial econômico, no qual os EUA é o centro nervoso. O pais terá que rever toda sua relação de mercado com os outros países, isso sim poderá representar uma mudança. Mas fará algumas concessões que irá beneficiar, mas por pura necessidade estratégica, longe daquilo que muitos esperam. Ou seja, que adotem uma postura de ajuda descomprometida perante outras nações. Complementa analisando o discurso de posse e afirma: “Ele busca raízes históricas nas justificativas das próprias guerras internas. Quer dizer, se tiver que ser feita uma guerra lá fora, isso acontecerá. A política norte-americana será seguida. A possibilidade de reduzir a ação militar externa, diz respeito a questões de gastos apenas. Manter as tropas no Oriente Médio, representa um gasto faraônico aos cofres dos EUA”, conclui o professor.

Como um símbolo de abuso dos direitos humanos, a prisão de Guantánamo desgastou a imagem dos EUA no mundo. Obama havia se comprometido a fechar o polêmico campo de detenção durante a campanha eleitoral. Tendo sido eleito, Obama deverá, em um ano, responder o que fazer dos prisioneiros.



Podologia: saúde e beleza aos pés

Com vestimenta adequada, podólogos são os responsáveis pela saúde dos pés

Os pés são os responsáveis pelo equilíbrio, pela sustentação e pela locomoção. No entanto, nem sempre recebem os merecidos cuidados por suportarem, dia-a-dia, estas três árduas tarefas. Como se não bastasse o trabalho desgastante, há ainda, outros inimigos rotineiros: os calçados apertados, os saltos altos e os bicos finos. Apareceram calosidade, unha encravada, frieiras e micoses? Sem pânico! A solução é procurar um podólogo.

Apesar de ser recorrente desde as antigas civilizações, só em 1957, a profissão passa a ser regulamentada como uma atividade afim da medicina, baseada na ética e nos cuidados com a saúde. A formação permite a atuação em clínicas, hospitais, serviços sociais, podendo agir nas associações e postos de saúde. Enquanto o pedicure tem seu trabalho mais voltado à estética, o podólogo é o responsável pelos cuidados com as patologias dos pés.

Marcielli Borguezan David trabalha como manicure/pedicure em Francisco Beltrão há 10 anos. Há 2 anos, iniciou um curso de Técnico de Podologia no Instituto Filadélfia, em Pato Branco. A podóloga garante que, hoje, trabalhando tanto na saúde quanto na estética, tem um maior reconhecimento profissional e uma maior procura por seus trabalhos.

As patologias são inúmeras. Umas raras, outras muito freqüentes. Entre as mais comuns, estão as calosidades, os calos com núcleo, as verrugas, as micoses, as frieiras, joanetes e as famosas unhas encravadas. Marielli aponta as principais causas ou, como chama, venenos: "algumas patologias são hereditárias, outras causadas pelos hábitos inadequados no trato com os pés, como o uso calçados pequenos e apertados, a falta de higienização, o corte das unhas feito de forma errada, ou até mesmo em função do trabalho, como as botinas que, devido umidade, causam frieiras".

A podologia dá capacidade para que se trabalhe e se tenha os mais diversos cuidados com os variados tipos e cuidados com os pés. Como exemplo disso, há o chamado "pé diabético", em função das características particulares que exigem uma atenção ainda maior. "As pessoas com diabetes não devem ir à manicure pois, em caso de ferimento e, dependendo do estágio da diabetes, o corte não cicatrizará, causando uma lesão mais agressiva. Nesse caso, a função da podologia é a prevenção.", justifica a podóloga.

O nosso organismo tem seu mecanismo de defesa. As calosidades, bastante decorrentes do uso de rasteirinhas, são como uma resposta à forte pressão a que a sola do pé é exposta. O tratamento é simples: a queratina - material da calosidade - é retirada com o bisturi e lixada.
No caso de granulomas, infecções evoluídas em unhas encravadas, o procedimento se dá com a retirada da pele grossa seguida da aplicação de cimento cirúrgico - auxiliar e acelerador da cicatrização. Para que a unha volte ao seu leito normal, utiliza-se backet. Sim, aqueles mesmos quadradinhos de metal dos aparelhos dentários. A função é levantar a unha através da pressão. O acessório tem durabilidade de vinte dias, tendo de ser continuada em casos de unhas bem curvadas, que podem demorar até 4 meses.


A ética profissional consiste em estabelecer um limite à profissão do podólogo, ou seja, fazer só aquilo que estiver ao seu alcance. Dessa forma, o profissional é, em alguns casos, o responsável por diagnosticar o problema e encaminhar para um médico. "É importante que as pessoas não se mediquem sozinhas. A micose, por exemplo, pode ser causada por inúmeros fungos. É necessário que se tenha o parecer de um especialista do assunto, para que o paciente seja encaminhado para uma dermatologista, que indicará o medicamento correto", informa a podóloga.

Para um pé bonito e saudável, Marielli dá dicas: "é essencial que seja utilizado um calçado confortável, macio, do tamanho adequado e que se tenha uma boa higiene local".

Saúde


A busca pela forma saudável

Parque Alvorada é ponto de encontro para quem busca o bem-estar


Os parques, as academias e as clínicas de estética estão sendo freqüentados como em nenhuma outra estação do ano. É verão. Exercitam-se os que saíram do inverno desesperados com a aparência do corpo, mas também se cuidam aqueles raros persistentes, que durante todo o ano mantiveram uma rotina de exercícios físicos.

"Poucos pensam nos benefícios que virão no verão se já cuidar do corpo a longa data. Nos meses de outubro as mulheres começam a ficar enlouquecidas porque está chegando a hora de colocar o vestido curto e o biquíni", explica Luciana Alberton, fisioterapeuta especializada em dermatologia-funcional.

A gordura localizada e a celulite são as grandes inimigas do sexo feminino que, em virtude da parte hormonal, apresenta esses problemas de forma mais gritante. O que não significa que os homens não os tenham.

Entre os profissionais da estética, há uma verdade: para um verão mais bonito e saudável, é necessário que sejam tomados cuidados desde o inverno. "As atividades físicas, se regularmente feitas, oferecem bons resultados dentro de 30 dias. Se começadas antes, quando a pessoa entrar no verão, ela só fará uma manutenção", garante Álvaro Mroginski, professor de educação física.
As clínicas de estética também são auxiliares nesse processo. Conforme a necessidade do paciente, opta-se por sessões de destoxirredução, aparelhos que provoquem a quebra das moléculas de gordura como o ultrassom, a eletrolipoforese, e o infravermelho associado a produtos que, com o calor, ativam o metabolismo local. Para Luciana, a gordura localizada e a celulite devem ser tratadas não como um aspecto externo, mas interno. "Tentamos melhorar o funcional para que a estética venha por conseqüência", justifica a fisioterapeuta.

As soluções para um corpo em dia, agregando saúde à beleza, não se dão de forma isolada. A sugestão é que, à prática de exercícios de forma contínua, sejam associadas orientação nutricional, redução do consumo de alimentos industrializados, e a hidratação - tanto de dentro para fora como de fora para dentro. Ou seja, beber muito líquido e abusar de cremes hidratantes. Mroginski afirma que o bem-estar com o corpo está diretamente ligado à auto-estima e à vida pessoal de cada um. Além de variar conforme o metabolismo, as horas de sono, a alimentação, o humor e o dia-a-dia também interferem na hora de buscar a satisfação com corpo.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Inclusão Digital


Falta dinheiro e sobra vontade

Os projetos que, mesmo sem apoio financeiro do governo, persistiram e hoje são exemplos de que a comunidade e o voluntarismo andam juntos

“Eu não tenho computador em casa. Trabalhei em lugares onde tinha e até pude aprender alguma coisa. Já fiz um curso de auxiliar de escritório, mas, pra qualquer emprego, também preciso de uma experiência no computador”, conta Jéssica dos Santos, 17 anos, que há uma semana freqüenta aulas gratuitas de informática.

É através dessas procuras que as salas dos Telecentros se encontram cheias de alunos que, em outras condições, não teriam chances de obter um diploma de curso de informática. As iniciativas partem das mais variadas fontes. São voluntários, igrejas e entidades que buscam - junto do governo - a inclusão digital da parcela da população que ainda não se conectou a essa nova realidade.

A Irmandade do Divino Espírito Santo, no Bairro Farroupilha, é um dos exemplos de como a comunidade tem se voltado para essa questão. “A princípio era para ser com a ajuda da Prefeitura, do Estado e das entidades. Mas não deu certo. Eles queriam nos dar dois rolinhos de papel. O que a gente faz com dois rolos?”, comenta Pegoraro, secretário da Irmandade e coordenador da Escola de Informática. A solução encontrada foi a contratação de uma instrutora e a ajuda comunitária.

Assim, Paula Pinto trabalha há cinco anos instruindo e diplomando adolescentes carentes. “Nós queremos dar oportunidade para quem não tem. No final, os aprovados ganham um certificado que é válido pra estágios”, explica Paula. Nessa escola, a única necessidade para entrar, é comprovar renda familiar inferior a dois salários mínimos. A professora relata que a freqüência dos alunos não é de 100%, mas, assim que podem, eles comparecem e se mostram muito interessados em compreender as utilidades que esse novo meio pode nos fornecer. “Estou sempre aprendendo aqui, é muito gratificante. Afinal, quem disse que informática não é bom?”, brinca Paula. Cada curso dura trinta dias, sendo que há três turmas (pela manhã, à tarde e outra aos sábados) que contam com doze alunos cada uma.
“To aqui no Ponto”, fala Thiago ao atender o telefone. Dessa forma, ele se refere ao Ponto Cultural situado na Biblioteca Social Mundial - outro lugar onde o voluntarismo e a vontade de compartilhar o conhecimento ganham notoriedade. Localizada no Bairro Santana, a Biblioteca surge como um estabelecimento de Cultura Digital - uma ação federal constituinte do Programa Cultura Viva. Como objetivo, seriam implantados equipamentos e formação de agentes locais para a produção e intercâmbio de vídeo, áudio, fotografia e multimídia digital com software livre e conexão à Internet.

A realidade, no entanto, é diferente. Thiago Vasques é quem nos explica: “A verba inicial foi enviada juntamente com computadores precários que nunca tiveram uso e estão estocados na salinha aqui ao lado”. Hoje, a contribuição do Governo Federal é o custo do aluguel. A manutenção da casa e o desenvolvimento do ambiente partem da vontade individual dos que trabalham no lugar. “Uma verdade é que o projeto não tem a assessoria governamental necessária e contínua. Foi implementado, mas não houve sua concretização”, afirma. A disponibilidade para todos é barrada pela falta de estrutura e computadores de qualidade mínima.

Mesmo sem internet, nas mãos do futuro publicitário Thiago, os dois computadores, a ilha de edição, as filmadoras e a máquina fotográfica ganham utilidade. Os equipamentos foram comprados com o dinheiro público e também do próprio bolso. É com esse incentivo que os artistas do bairro são filmados e tem seus vídeos lançados no Youtube, com qualidade de quem grava em estúdio. “O que eu quero é, além de dar oportunidade de divulgação dos seus trabalhos, qualificar a todos”, com essas palavras, Thiago define o que entende por fusão digital.
Seu Jorge Inácio é um cantor-pedreiro. Nas folgas, pega seu caderno de folhas grandes e cria suas canções. A partir de uma de suas músicas, foi gravado um videoclipe nas redondezas da Biblioteca, posteriormente lançado na rede. Apostando no áudio com linguagem cinematográfica, Thiago garante que seu dom é “poluir a internet” – para tanto, ele conta com a conexão da casa de seus pais. Os artistas do bairro agradecem.

Como diz Thiago, a Biblioteca Social Mundial é um espaço de todos. As portas da casa e a boa vontade dos que lá trabalham convidam aqueles que quiserem conhecer e aproveitar o ambiente como um local de muito aprendizado e cultura. Além de livros, salas de costura, projeções de filmes e brechó, é onde mais de trinta músicos já foram registrados. O Telecentro, no entanto, nunca pode ser concretizado.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008


Blogs viram palanques

Como a internet pode ser útil para a democratização e participação da vida política brasileira


O uso da internet nas campanhas eleitorais está liberado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Depois de afirmada resolução que permitia a campanha em apenas um site oficial para cada candidato, ministros voltam atrás e reavaliam a questão.
"É impossível que o direito consiga controlar com eficácia a comunicação através de computadores. O modo de fugir da proibição, de disfarçar, de recorrer a sites internacionais é infinito. O direito não tem como dar conta deste espaço". Esse foi o argumento utilizado pelo presidente do TSE, ministro Carlos Ayres Britto, que acredita que cada caso deverá ser analisado separadamente, dentro das suas circunstâncias.
A resolução de maio de 2008 antes de ser revogada, entretanto, causou muitos manifestos. Blogueiros e internautas usaram a rede para manifestar sua revolta perante a censura realizada pela justiça, alegando a falta de liberdade de comunicação – principalmente em épocas eleitorais, quando a informação deveria ser ainda mais relevante.
O caso teve repercussão nacional quando o blog de Pedro Doria, colunista do caderno Link e repórter-especial do caderno Aliás, ambos de O Estado de São Paulo, foi censurado por manifestar incentivo à candidatura de Fernando Gabeira, no Rio de Janeiro. Em entrevista especial à Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Pedro Doria afirma acreditar que a censura é capaz de divulgar ainda mais a imagem de um candidato, considerando a lei do TSE um mecanismo de controle democrático.
Os links e dispositivos eletrônicos de seu blog estão, até hoje, substituídos por banners pretos contendo a seguinte mensagem: “Censurado pelo Tribunal Regional do Rio de Janeiro” – o que se caracteriza como uma ofensa perante a conquista de liberdade de expressão após a ditadura militar.
“Não existem direitos absolutos”, diz Daniel Rubin, promotor de justiça. Mesmo assim, Rubin considera a antiga resolução como uma violação ao direito que cada um tem de buscar informações em sites de relacionamentos (como Orkut e Myspace), e sites em geral. O que não deve ser permitido é o envio de spams, torpedos e mensagens eletrônicas.
Dessa forma, o uso político da internet como meio de comunicação vem ganhando notoriedade dentro das discussões atuais. Os interessados não são apenas integrantes do governo, mas também organizações sociais, analistas e a própria população – em síntese, os preocupados com a ampliação dos espaços de participação e representação.
“O poder da internet está apenas começando a ser usado como um instrumento do processo político”, afirma Abílio Baeta Neves, doutor em Ciências Políticas e professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Na opinião de Abílio, o espaço-livre chamado internet pode ajudar muito na exposição das ações do governo – Governo Eletrônico – informando e recebendo demandas de todas as instituições e da população que, do contrário, a alternativa seria aquela de que os cidadãos precisam ir aos locais perguntar diretamente. “(...) o que torna tudo mais moroso”, ratifica Neves.
Outro ponto que torna a rede uma forte aliada na democratização cidadã do país é a facilidade com que ONGs e Movimentos Populares vêm conseguindo mobilizar grandes contingentes populacionais que se articulam dentro de interesses comuns.
“É claro que tanto uma quanto outra dessas dimensões que tem efetiva implicação política, sofrem com a limitação da universalização do acesso à internet - aquilo que se chama de inclusão digital. Daí surge a preocupação tanto de entidades não-governamentais como do próprio governo de criar locais públicos de acesso à internet”, lembra o cientista político.
A respeito da resolução do Tribunal Superior Eleitoral, afirma que a decisão foi baseada muito mais no temor pelo fato de a internet ser uma mídia incontrolável, do que na sua incapacidade como instrumento de ação política. “Ainda que todos tenham preocupação com a enorme liberalidade com que se usa a internet hoje, ela é de fato instrumento inestimável de envolvimento e de mobilização, informação e, portanto, nesse contexto, de participação virtual na política”, complementa o professor.
O baixo custo da internet também pode garantir que os candidatos sem muita verba tenham as mesmas chances que os que fazem de suas campanhas grandes shows publicitários, evitando assim o uso abusivo do poder econômico. Além disso, Abílio Neves encara o uso da internet como uma possível aproximação entre as relações políticas dos partidos, organismos de poder e o eleitorado, assim como uma maior união da população com seus objetivos específicos.
João Marcos de Souza Martins, 24 anos, é formado em Direito e candidato pela primeira vez a vereador do seu município. Quando lançada a sua candidatura, criou uma comunidade no Orkut para que pudesse divulgar seu currículo e ideários políticos. “O Orkut é uma ferramenta de inestimável valor para quem pretende fazer uma campanha sem gastos elevados com propaganda. Dessa forma é possível, em pouco tempo, divulgar informações a um grande numero de pessoas a custo zero”, comenta o candidato. Quando divulgada a resolução pelo TSE, João Marcos diz ter sentido sua liberdade de expressão e comunicação com seus futuros eleitores bastante prejudicadas. “Acredito que essa resolução tenha tido um fundo ideológico bem típico da elite dominante que tem muita verba para fazer uma campanha razoável”, argumenta.
Louise Serraglio, 19, estudante de arquitetura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, votará pela primeira vez nessas eleições. “Nunca fui muito ligada à política. Agora, como eleitora, me vejo interessada pelas propostas e idéias dos candidatos. Como fico muito tempo no computador e, consequentemente, na internet, acredito que a rede seja um meio muito eficaz para a divulgação daquilo que julgo necessário saber antes de ir às urnas. Além do mais, a interatividade que os meios digitais proporcionam sempre acabam deixando mais atraente essas formas alternativas de nos interarmos com assuntos como a política”, diz a estudante.
A internet já ganha forças dentro do legislativo, a voz de seus blogs e sites pessoais revogou a resolução e fizeram ministros repensarem suas medidas – o que já seria motivo de sua valorização. Como assessora de ONGs e movimentos, revela ainda mais sua capacidade de mobilização. E agora, em período pré-eleitoral, mostra-se como uma verdadeira ferramenta de inclusão dos jovens na vida política, atraindo-os com suas mil possibilidades de divulgação de informação – vídeos, áudios, sites de relacionamentos, sites pessoais e até blogs dos próprios candidatos.